FUTURO. "Após Lisboa,
"Amália" vai a Paris, Bruxelas, Luxemburgo, Londres, Brasil e talvez Toronto,
Tóquio e EUA"
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Entrevista
Amália falou ao
coração dos Portugueses
Texto Publicado no Diário de Notícias - 25 de Julho de
2001
Texto: Eduardo
ToméUm ano depois da estreia,
"Amália" tornou-se num dos maiores êxitos da carreira de La Féria. Um ano de
"Amália" em Lisboa... Um ano em Lisboa, diz bem. Porque ele foi estreado na
Madeira, em Dezembro de 1999, e esteve em cena algumas semanas, sempre com salas cheias.
Como vê, então, este êxito?
Mas nunca que o fosse tanto. O espectáculo falou ao coração dos
portugueses. Houve centenas de excursões de todo o país. A prova de que, além de
Amália ser um dos símbolos da nossa portugalidade, é um bom espectáculo.
As críticas foram positivas...
Foram quase unânimes. O espectáculo, eu próprio e a Alexandra recebemos, ao longo deste
tempo, diversos prémios. É muito raro, um espectáculo ter a unanimidade da crítica e
do público.
O "Amália" vai em breve percorrer mundo. O que
está previsto?
Está prevista a estreia, a 12 de Março próximo, no Palais des Congrès, em Paris - um
dos mais prestigosos palcos da capital francesa - e depois uma longa digressão pelo
Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Alemanha, Suiça, Inglaterra. A Europa e, sobretudo, a
Europa dos nossos emigrantes, que se têm deslocado a Lisboa para ver o espectáculo. O
Politeama tornou-se quase num local de culto a Amália.
E da tal portugalidade.
É verdade. Depois da Europa, iremos para o Rio de Janeiro e para S. Paulo. Há
conversações em curso, para irmos a Toronto, a Tóquio e a Nova Iorque.
E a ida ao Porto, como está?
O Porto tem muito poucas casas de espectáculo, o que tem tornado as coisas mais
difíceis. Teria uma pena profunda se o não pudesse apresentar no Porto.
É apenas um problema de sala?
Há, de facto, conversações com o Coliseu do Porto, mas é tudo o que posso dizer, nesta
data.
Qual é a chave dos seus êxito?
Acho que é o fazer espectáculos sobre Portugal e os portugueses. O povo português ama a
sua história, bem mais do que muitos julgam. E um povo que ama a sua história, ama o
teatro. Veja o que se passa, por exemplo, com o teatro inglês. O que acontece com o
êxito do Amália e de outros espectáculos é que são temas nacionais. As pessoas
revisitam a sua história colectiva também nas histórias que veem no palco.
No "Amália", há décadas da nossa história
recente que passam pelo palco. Não apenas a social, também a política...
E não só essas. Mas também a cultural, por isso se acompanha o espectáculo com a
pintura portuguesa. Desde o Malhoa à Vieira da Silva, ao Almada. E também os poetas, os
grandes poetas que Amália cantou. Do Camões ao Régio, do O'Neill ao Alegre.
É o século de Amália Rodrigues.
Exactamente. A Amália nasce ainda na primeira República, vive no tempo do Estado Novo, e
com o Estado Novo, foi condecorada pelo Marcelo Caetano, ultrapassa o 25 de Abril, foi
condecorada por Mário Soares e por Sampaio. O presidente fez, de resto, um brilhante
discurso sobre Amália, na cerimónia da trasladação para o Panteão.
Falou da portugalidade da Amália. Essa ideia é
transmitida sobretudo pelo mar, imagem recorrente no espectáculo e particularmente
significativa na cena em que Amália canta Camões.
Parte do texto escrevia-a na Madeira, olhando o mar. Sim, aí eu fui tocado pelo facto de
a voz da Amália ser a própria voz do Atlântico, que nos levou pelo mundo e nos deu
mundo.
A Madeira fica assim duplamente ligada ao espectáculo.
Sim, porque sem o apoio da Madeira e da sua secretaria da Cultura, este espectáculo não
teria existido. Por isso vamos homenagear, na terça-feira [ontem], a Madeira. O chefe do
seu governo e particularmente o titular da pasta da Cultura da Região, João Carlos
Abreu, cujo esforço não apenas foi decisivo para o nascimento e a montagem do
espectáculo, como para a sua reposição em Lisboa. Este espectáculo pertence-lhe
também bastante.
Que radiografia faz do teatro em Portugal, você que é um
empresário independente?
Sim, sou o único empresário independente. O Estado, de resto, negou-me qualquer
subsídio, porque o meu teatro era "comercial". E isso fere-me muito. Foi
esquecer, não apenas o presente, como todo o meu passado - na Casa da Comédia, no Teatro
Nacional. Estou muito pessimista com o actual panorama do teatro em Portugal. A situação
do Teatro Nacional é o mais flagrante atestado da grande incompetência do Ministério da
Cultura. Não sou um homem de direita, mas estou muito desiludido com esta esquerda. A
política da esquerda que tomou conta da cultura em Portugal é desastrosa e própria de
um país totalitário. Fui perseguido neste teatro, o risco que corri de o perder, é um
exemplo. Pago verbas incalculáveis de impostos, é uma nova arma. Para uma companhia que
nem sequer é apoiada pelo Estado, o que depois tem de pagar é imoral e desincentivante.
"O estado da cultura é caótico"
O Teatro Nacional deveria regressar à política de concurso para a sua
exploração? Em tempos Amélia Rey Colaço dirigiu-o nessa base.
Sou francamente partidário dessa opção, embora o Estado não deva divorciar-se do apoio
à casa que tem a função de "teatro nacional". Garrett criou-o para a
divulgação da nossa dramaturgia.
Há quem a ache menor...
A nossa dramaturgia, ao contrário do que se pensa, não é uma dramaturgia pobre. A nossa
dramaturgia é riquíssima.
Com Amélia Rey Colaço, o reportório do Teatro Nacional
abarcava todos os géneros, todos os públicos.
Exactamente. Desde a comédia de boulevard até aos autores mais importantes do teatro
clássico e da dramaturgia contemporânea. Foi Amélia Rey Colaço quem revelou autores
tão importantes do século XX, como Pirandello, Tchekov, Arthur Miller, Tenessee
Williams. Olhando para trás, vemos que ela foi a figura mais importante do teatro
português.
Que lhe parece a eventual divulgada nomeação, para
directora do Nacional, de Maria de Medeiros?
Como admitir-se que a directora do teatro não tenha essa exclusividade, que, pelo
telefone, de Paris, dirija um Teatro Nacional? Não quero desrespeitar uma carreira, feita
no cinema, mas foi uma decisão inadequada. De resto, o actual Governo pecou sempre pela
escolha de pessoas muito ligadas a lobbies culturais. Ou vai um para o poder, ou vai
outro, numa espécie de rotativismo de grupos. E isso vai reflectir-se numa cultura de
gosto, não de liberdade.
Deve o Estado apoiar o teatro?
Como em Inglaterra, ou aqui na vizinha Espanha. Com menos partidarização - para o
teatro, como para tudo - e mais apelo à competência. Temos de ajudar o teatro de
pesquisa. Mas não podemos ter um teatro que seja só teatro de pesquisa, sem haver teatro
de reportório, teatro de comédia, teatro de revista. O Parque Mayer está destruído.
Deixou-se chegar a cultura a um estado caótico.
Os teatros são abandonados.
Ainda ontem soube que o Condes - o primeiro teatro de reportório e de cultura que Lisboa
teve - parece que vai ser mais um centro comercial. Estou à espera de ver a Torre de
Belém travestida de centro comercial. É apocalíptico. Como dizia Lorca, "o teatro
é sempre o barómetro de um país". Eis um tema, o da cultura, que deveria ser
abordado pelo Presidente Sampaio. É um apelo.
O de exigir o respeito pela cultura e pelo teatro...
Exacto. Veja a falta de respeito com que se tratou actores como o Ruy de Carvalho, a
Eunice Muñoz - e que vão estar, em breve, aqui no Politeama, com A Casa do Lago -
actores a quem se deveria ter eregido estátuas, à entrada do Nacional. Foram arredados
quase com uma reforma compulsiva.
Será por o poder os não considerar "politicamente
correctos"?
Talvez. Mas mal vai o país que não respeita os seus valores.
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