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A propósito do Aniversário de
Nascimento de Amália
E Deus recriou o fado
Texto Publicado no www.terraportugal.com
por Carla Martins
Amália da Piedade Rodrigues ou simplesmente, Amália vem ao mundo para
sempre num impreciso dia de Julho de 1920. No dia 1, segundo ela, no dia 23, de acordo com
os registos. Nasce no seio de uma família «muitíssimo pobre», com origens na Beira
Baixa. Amália vê pela primeira vez a luz dos dias no bairro de
Alcântara, em Lisboa. Em entrevista ao Expresso, em Fevereiro do ano passado, confessou
aliás que não se ficou pelos Estados Unidos «porque na América não existia Lisboa».
É criada na Beira Baixa até aos 14 anos pela avó materna, Ana do Rosário, num clima
familiar de rigor e temor religioso. Nunca perde este temor a Deus, pelo contrário. «Sou
muito agarrada a Deus, muito mais agora que caminho para o fim», revela na mesma
entrevista.
A sua atracção pelo abismo da morte também a marca desde sempre, pelo menos desde os 18
anos, quando tenta o suicídio com remédio dos ratos à porta da casa namorado, um
torneiro mecânico e guitarrista com quem chegou a casar dois anos depois. «Já morri
tantas vezes que, se calhar, quando chegar a altura não darei por isso». E,
aparentemente, foi mesmo assim, na madrugada de 6 de Outubro.
Figura do regime?
Estreia-se profissionalmente em 1939, no Retiro da Severa. Em pouco tempo, multiplicam-se
os convites para outras actuações. O seu périplo artístico fora do país começa em
Madrid, em 1943. No ano seguinte, é solicitada para actuar durante seis semanas no Casino
de Copacabana, no Brasil. Fica por três meses e grava o primeiro registo da sua
discografia, As Penas.
«O seu retorno a Lisboa foi triunfal. Amália voltara do Brasil artista feita, sendo logo
cooptada pela política triunfalista do governo de Salazar, que fez dela a cantora do
regime», escreve o jornalista luso-brasileiro Duda-Guennes, em 1999, no Jornal do
Commercio. Não se pode negligenciar a trilogia do entretenimento durante a ditadura:
futebol, fado e Fátima.
A artista, porém, sempre negou este envolvimento político com o Estado Novo, defendendo
que «a política jamais me interessou». O 25 de Abril ignora este argumento e Amália
afasta-se da vida pública durante alguns anos. Certo é que fora consagrada antes da
Revolução dos Cravos com condecorações e prémios nacionais. E voltaria a sê-lo
depois de 1974.
O seu percurso no estrangeiro atingiu um ponto de viragem em 1957 - já depois de Itália,
Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos -, quando dá um espectáculo no famoso Olympia de
Paris. O aparecimento no filme Les Amants du Tage (Os Amantes do Tejo), em 1955, no qual
canta Barco Negro e Canção do Mar, antecipa este sucesso.
Cantar os poetas
Doravante, nem as duras fronteiras ideológicas a impedem de actuar em locais como a
União Soviética, o que aconteceu em 1969. No ano seguinte, encanta o Japão, país que,
graças a ela, se apaixona perdidamente pelo fado. Na raiz deste êxito internacional
está a amizade, determinante, com o aristocrata e banqueiro Ricardo Espírito Santo, que
lhe abre as portas impossíveis de franquear da classe alta.
Por outras razões, os anos 60 foram igualmente decisivos na sua vida e carreira. Por um
lado, casa novamente em 1961, com César Seabra. Por outro, o compositor franco-português
Alain Oulmain imprime um novo impulso à evolução do repertório de Amália, «com
versões musicais complexas dos grandes poetas» nacionais, explica o musicólogo Rui
Vieira Nery, no Expresso.
Além do fado e da música, Amália revelou outras facetas do seu húmus artístico.
Participou em revistas, representou em alguns filmes e também numa telenovela brasileira,
em 1971. Contudo, da sua filmografia sobressai Capas Negras, de 1947, que marca a sua
estreia no cinema e que bate recordes sucessivos de exibição. Esta constitui a
excepção à regra generalizada segundo a qual «a fadista nunca tem uma boa relação
com a Sétima Arte».
Uma escultura de Amália encontra-se junto ao rio Tejo. O seu rosto, emproado, é
emoldurado por uma guitarra portuguesa. A mulher e a guitarra estão imbricadas, em união
acima dos homens. «Nunca exigi nada. Sou tudo aquilo que o fado quer. Não sou eu que
canto o fado, é o fado que canta em mim». Texto: Carla Martins
(TerraPortugal). |