Um fado para além do Fado
Por Rui Vieira Nery, Jornal PúblicoQuando
Amália se estreou profissionalmente no Retiro da Severa, em 1939, o fado tinha ainda
pouco mais de um século. Tradição nascida nos bairros populares de Lisboa nas primeiras
décadas do século XIX, no seio de uma atmosfera quase marginal onde se cruzavam
marinheiros e varinas, estivadores e prostitutas, fidalgos boémios e artistas, também na
sua música e nos seus versos se combinavam influências múltiplas, umas populares e
outras eruditas, da modinha de salão ao lundum afro-brasileiro, das danças rústicas
como a chula, a fofa ou o fandango aos cânticos religiosos tradicionais e até mesmo às
romanzas e cançonetas sentimentais de sabor cosmopolita e urbano que no mesmo período
chegavam de Espanha, da França ou de Itália. Com excepção do seu desenvolvimento muito
específico em Coimbra, como expressão lírica de uma certa boémia estudantil, o fado
manteve-se, assim, durante muito tempo, nesse seu circuito original, assumidamente
lisboeta e assumidamente popular.
A partir de finais do século, contudo, começaram a manifestar-se diversas
tendências para a sua assimilação crescente por outros contextos socio-culturais, desde
os arranjos para piano destinados às meninas prendadas dos salões burgueses, como nos
aparece bem descrito em alguns textos de Eça, à entrada no teatro musical, do vaudeville
à revista. Mas mesmo estes fenómenos eram ainda centrados na capital, apesar de
representarem uma abertura considerável do leque social interessado no fado. O grande
salto para uma verdadeira disseminação do fado à escala nacional seria, pois, dado nos
anos 20 e 30, primeiro com o sucesso de vendas das gravações dos primeiros discos de
alguns dos maiores fadistas da época, como Ercília Costa, Ermelinda Vitória, Maria do
Carmo Torres ou Maria Silva, depois - e muito especialmente - com o advento da rádio, que
pela primeira vez possibilitou uma relação próxima e regular com a linguagem fadista
mesmo aos portugueses das regiões mais remotas do país, que até então pouco ou nenhum
contacto tinham tido com ela.
Amália surgiu, assim, precisamente no momento em que o fado entrava neste novo
capítulo da sua evolução, passando de um género local enraizado nos bairros pobres de
Lisboa a um fenómeno dirigido a um público muito mais vasto e assente num suporte
profissional e comercial muito mais sólido. Esta transformação foi acompanhada de
mudanças radicais no próprio contexto da sua execução: o Estado Novo criou a carteira
profissional, sem a qual os fadistas passavam a não se poder apresentar em público, e
surgiram, em vez dos retiros e casas de pasto tradicionais onde o fado se cantava numa
atmosfera de boémia informal, as chamadas "casas de fado": o Solar da Alegria,
o Retiro da Severa, o Luso, já com um ritual de execução rigidamente concebido e
destinadas, afinal de contas, a um público com outra respeitabilidade social e sobretudo
com outro poder de compra.
Amália cantava como ninguém os fados tradicionais: o núcleo duro
hiper-castiço formado pelo Corrido, pelo Menor e pelo Mouraria, ou os consagrados
Franklin, Vitória, Dois Tons, Pedro Rodrigues e mais umas duas dezenas de melodias
estabelecidas. Mas cantava já esse repertório clássico de uma forma diferente, com uma
intensidade dramática que lhe fazia subordinar o ritmo regular da melodia ao sabor da
dicção poética, com suspensões inesperadas que muito devem ter surpreendido a rotina
dos guitarristas acompanhadores da época. E acrescentava-lhe ornamentos novos, que fora
buscar às cantigas da Beira Baixa que ouvia cantar em casa a sua mãe. Os puristas
sobressaltaram-se com este canto irreverente e falaram de "espanholismos", mas
não puderam resistir ao poder mágico de uma voz fascinante e única que encontrava assim
uma ponte entre os géneros estabelecidos do fado lisboeta tradicional e outras
referências profundas da música popular portuguesa.
Novo escândalo foi a maneira como decidiu cantar, entusiasmada, os
fados-canção de Frederico Valério, Raúl Ferrão ou Frederico de Freitas, típicos até
então sobretudo do repertório de revista, e caracterizados por uma estrutura musical já
mais complexa, com refrão e coplas, por oposição à simplicidade estrófica dos velhos
fados castiços. E desde muito cedo cantou também cantigas e danças rurais, dos romances
tradicionais ao vira e ao malhão, bem as marchas populares de Lisboa, ligadas às festas
dos bairros antigos da sua cidade, com cuja religiosidade profunda sempre tanto se
identificou.
Escândalo também, por último, foi o seu passo seguinte: tendo tido sempre um
extremo cuidado na selecção dos poemas que cantava, e motivando, já desde os anos 50,
autores do calibre de um David Mourão-Ferreira a escreverem para ela, lançou-se na
década seguinte a cantar os grandes poetas da língua portuguesa, dos trovadores a
Camões, e de Bocage aos contemporâneos, guiada antes de mais pelo seu instinto agudo
para a qualidade, mas levada musicalmente pela mão de Alain Oulmain, que lhes vestiu os
versos de melodias extraordinárias, de profundo sabor fadista mas de uma sofisticação
harmónica até então desconhecida pelo fado.
Ao fazer tudo isto, Amália criou pontes novas e indestrutíveis entre registos
da expressão musical e poética portuguesa que até aí se tinham mantido estanques entre
si. Permaneceu essencialmente fadista mas uniu numa mesma forma de expressão radicada no
fado, através de uma mesma voz prenhe de emoção e de sentido, o que era urbano ao que
era rural, o que era popular ao que era erudito. Por isso, com ela o fado se libertou dos
limites da sua carga histórica e geográfica concreta e - sem cortar com as suas raízes
ou sem renunciar à essência da sua especificidade -se abriu à totalidade da
experiência cultural e existencial portuguesa. Por isso, com ela o fado se tornou numa
linguagem aberta em que todos nós, portugueses, nos reconhecemos e nos sentimos de algum
modo retratados. Neste sentido, é de facto com Amália que podemos falar do fado como de
uma verdadeira canção nacional, libertando esta expressão da carga ideológica e
mítica deturpante que algumas vezes lhe foi dada.
Foi esta dimensão nacional profunda que, por mais contraditório que isso possa
parecer, a consagrou também internacionalmente. Num circuito artístico mundial dominado
já por uma tendência crescente para a massificação, a partir de modelos
pré-fabricados segundo o gosto médio de um público incaracterístico, irreconhecíveis
uns dos outros e todos eles de curta duração, a voz de Amália irrompeu a partir dos
anos 50 como qualquer coisa de especial, de inconfundível, de perene, livre das
flutuações artificiais das modas e do consumo imediato. E a sua capacidade de
comunicação emocional transcendia tanto mais as barreiras culturais e linguísticas
quanto mais assumia inequivocamente a sua matriz portuguesa original. Por isso, com ela
Portugal passou a ter no mundo um rosto musical identificável, e na sua voz nos passaram
os outros a reconhecer tanto como nós próprios nos reconhecíamos já nela. Por isso,
ainda, com ela o fado adquiriu, também visto de fora, a dimensão verdadeiramente
nacional que através dela conquistara já dentro do país.
Não sei se depois de Amália as coisas continuarão assim. Esse "fado para
além do fado" que foi o seu - feito de uma síntese única das linguagens e
tradições poético-musicais do todo nacional construída a partir das raízes lisboetas
- poderá, sem ela, tornar-se insustentável, e as componentes populares e eruditas,
rurais e urbanas que nele confluíam poderão tender a desagregar-se outra vez e a seguir,
cada uma delas, o seu rumo próprio. Mas talvez por isso o seu legado discográfico venha
a ficar ainda mais como um património artístico duplamente precioso, como o registo de
mais um desses sonhos utópicos de uma grandeza perdida e irrepetível que povoam a nossa
memória colectiva como traços de fundo da nossa própria identidade. 