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Estrela (à esquerda) e Ilda, duas amigas da fadista, junto a uma das fotografias que decoram as paredes

Casa Museu de Amália
Amália continua "viva"
Texto Publicado no Correio da Manhã - 23 de Julho de 2001
Texto: Rita Montenegro | Fotos: Marques Valentim

Amália Rodrigues não sabia ao certo a sua data de nascimento. Segundo a avó, a diva terá nascido por "altura das cerejas" (Junho, Julho). Reza a tradição que, como ela não queria ser do signo Caranguejo, escolheu o dia 23 de Julho (o primeiro de Leão) para comemorar o aniversário.

E foi precisamente ontem [dia 22 de Julho] - quando passava mais um ano do seu suposto nascimento (1920) - que a Fundação Amália Rodrigues Casa-Museu abriu as suas portas ao Correio da Manhã, embora a inauguração oficial seja hoje à tarde. Para o público em geral, quarta-feira às 10h00, iniciam-se as visitas guiadas, até às 18h00, que custam mil escudos. Na porta de entrada do n.º 193 da R. S. Bento, estão penduradas duas rosas. Nesta casa, que resistiu ao terramoto de 1755, Amália morou desde a década de 50 até à morte.

Em testamento, deixou expressa que era sua vontade que a casa fosse transformada num museu com fins caritativos. Móveis e objectos permanecem, na sua grande maioria, nos lugares onde Amália os deixou. Subindo as escadas até ao primeiro piso, no hall, encontra-se um retrato a óleo da diva, da au-toria de Luís Pinto Coelho, sobre uma mesa de encostar dos fins do século XVIII. Amália respira-se por todo o lado.

Pelas paredes estão espalhadas fotografias da cantora, ora em actuações, ora em poses descontraídas, mas quase sempre com um semblante carregado. Na sala de estar, o piano de meia cauda parece aguardar o momento de ser tocado pela sua diva. Era nesta divisão que Amália passava os dias e os serões, tanto sozinha como rodeada de amigos. Num dos sofás ainda permanecem um bandolim e uma guitarra incrustada a granadas, turquesas e minas novas.

A estante fechada
A esta sala, foi acrescentada uma mesa onde estão dispostas medalhas e condecorações atribuídas à fadista entre 1968 e 2001, e onde já foi colocada a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, concedida, a título póstumo, pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, no passado dia 8, aquando da transladação dos restos mortais da fadista do Cemitério dos Prazeres para o Panteão Nacional. Para a escultora Aida Furtado, que tem participado na preparação da Casa-Museu e a quem cabe a primeira visita guiada ao público, amanhã, uma das peças mais bonitas "é um Menino Jesus entronado do séc. XVII". Outra das divisões que o público tem direito a visitar é a sala de jantar.

A mesa está posta para oito pessoas, como se Amália estivesse à espera de convidados ilustres para mais uma faustosa refeição. Nas escadas que levam ao segundo piso, dois quadros de Amália decoram as paredes. É neste andar que Ilda Aleixo, mo-dista da cantora, e Estrela, secretária e comadre, mostram o quarto de hóspedes, a antecâ-mara e o quarto da artista. Em cima da cama, repousam os seus óculos, três rosas e o livro de versos editado antes da morte. Ao fundo da antecâmara, esconde-se um armário que contém as roupas de Amália - sapatos, maquilhagem, malas - e a meio da divisão, sobre uma mesa, estão dispostas as jóias que um dia brilharam no corpo de Amália.

Numa das paredes, é impossível deixar de reparar num quadro pintado a carvão em que a artista aparece com uma expressão mais ligeira do que habitual, mas com um olhar penetrante. Tem a seguinte inscrição: "Eu também tive o prazer de assistir Amália. Suely, 1975". Numa estante, que permanecerá, por enquanto, fechada ao público, encontram-se algumas folhas de papel com escritos dirigidos de Amália para Vitorino Nemésio. São estas cinco assoalhadas, incluindo uma loja de lembranças no rés-do-chão, que constituem a Casa-Museu. Ninguém fica indiferente ao espírito que reina no espaço. Amália continua "viva". Voltar ao Topo 

 

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