Castro Verde
Janita Salomé
O Alentejo dos alentejanos
Castro Verde, Auditório
Municipal, dia 24 de Abril 2003 às 22h
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. . . . . .Se em
tempos o Alentejo foi esquecido por quase todos, hoje a música alentejana é uma das mais
projectadas por esse país fora. Entre muitos, Janita Salomé aparece nessa frente, que
celebrizou a música das terras do sul. Para ver ao vivo, em Castro Verde.
"Uma carreira construída em torno da promoção do cantar
alentejano". Esta frase dirá tudo e nada adiantará para explicar o trabalho de
Janita Salomé. Não se trata aqui da pura recriação da música popular do Alentejo, é
antes a procura dos laços que unem essa tradição com a música tradicional árabe,
projecto iniciado em 1983 com a edição do disco "A Cantar ao Sol" e continuado
ao longo do tempo por "Lavrar em Teu Peito" (1985), e "Olho de Fogo"
(1987).
Depois de uma incursão pelo Fado de Coimbra - com "A Cantar
à Lua" (1991) - Janita volta a cantar mais puramente alentejano ao formar com os
irmãos Carlos e Vitorino, e ainda Filipa Pais, os Lua Extravagante que edita, em 1994, o
disco "Raiano".
De alguma forma o projecto Lua Extravagante é agora continuado
pelo mais recente investimento artístico de Janita Salomé. Trata-se de "Vozes do
Sul", um agrupamento que já gravou um disco, com o mesmo nome, onde se ouvem as
vozes do próprio Janita e dos grupos corais "As Camponesas de Castro Verde" da
Casa do Povo de Serpa, "Os Camponeses de Pias", os Cantadores do Redondo (grupo
fundado pelos irmãos Salomé), Bárbara Lagido, Catarina Salomé, Filipa Pais, Marta
Salomé, Patrícia Salomé e Vitorino Salomé.
Nesse álbum fazem-se ainda algumas experiências de arranjos
"insólitos" para este tipo de música, assinados por músicos de jazz como
Tomás Pimentel, Mário Delgado e Carlos Bica.
Em suma: no disco "Vozes do Sul" é feita uma espécie de
celebração do cante polifónico alentejano recorrendo quase exclusivamente a temas
tradicionais do Alto e Baixo Alentejo, feita de dois modos distintos: mantendo a pureza da
tradição original, em cantes restritos às vozes dos cantadores ou com acompanhamentos
tradicionais (sanfona, percussões); e procurando descobrir-lhes novas formas e novas
direcções, explorando a justaposição de cantes com arranjos para piano, ensemble
acústico ou quarteto de cordas.
Para os seus espectáculos, Janita Salomé, preparou um
espectáculo de dimensão mais intimista baseado na procura de laços que unem a
tradição popular alentejana com a música tradicional árabe, cantando poesia de alguns
grandes poetas portugueses como Manuel Alegre, Natália Correia, Manuel da Fonseca ou
Carlos Mota de Oliveira.
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Entrevista do jornalista Viriato
Teles a Janita Salomé
Janita Salomé Cantar ao Sul
Revista MPP - Amadora, 2001
Já passou a barreira física e
psicológica dos 50 anos de idade, vinte deles dedicados à música após o abandono de
uma carreira, certamente segura, mas entediante, de ajudante de cartório notarial no
Redondo. O cante corre-lhe nas veias e nos discos, como se sente em "Vozes do
Sul", o seu mais recente projecto publicado em CD, distinguido com a edição de 2001
do Prémio José Afonso. Com a tranquilidade que sempre o caracterizou, Janita Salomé
não desiste de levar por diante a sua música, feita de muitas memórias antigas
misturadas com novas sensações. Na certeza de que "existe uma linguagem própria,
nossa, e essa é que é necessário procurar, preservar e recriar". Por uma questão
de identidade, contra a estética totalizante do hamburguer. Porque, como se percebe ao
longo desta conversa, a música é como os vinhos: os mais divulgados e mais consumidos
não são necessariamente os melhores.
P- Que significado tem para ti receber o Prémio José Afonso?
R - Creio que o grande significado é ser o Prémio José Afonso. Basicamente, o Prémio
é a homenagem que a ele é feita todos os anos pela Câmara Municipal da Amadora - e
nunca é demais lembrar a obra do Zeca: não só aquilo que sempre foi evidenciado, mas
também a sua maneira de estar, toda a sua vida de antifascista e de lutas sociais. Mas
neste caso acho que o está mais em evidência a sua qualidade artística, de grande
compositor, grande poeta, grande cantor. De grande criador. Isso faz com que o prémio
tenha um valor muito especial. Por outro lado, também é importante a idoneidade dos
membros do júri e a qualidade artística dos outros nomeados. Isto para não cair naquela
banalidade de dizer que um prémio é uma coisa que sabe sempre bem. E é verdade, também
nos preenche de alguma forma o ego. Mas este foi de uma forma muito particular, muito
especial, e gostei bastante que isso acontecesse.
P - "Vozes
do Sul" é um disco feito de alguma forma à margem dos grandes circuitos...
R - Não é um disco que tenha a ver com as regras da moda, tem mais a ver com as regras
da malta, digamos assim. E também não tem a ver com uma lógica de mercado, ainda que
obviamente as coisas tenham que depender dele, mas nada do que eu fiz teve essa
preocupação. Eu sei que se paga por não utilizar determinada linguagem, não a adoptar,
mas não consigo separar a minha actividade de músico, de cantor, de compositor, de mim
próprio, da minha vida e do meu quotidiano. E os discos que faço, tudo aquilo que
transporto para o digital é o meu quotidiano. E se eu recuso, se estou sempre a filtrar
toda aquela informação que nos chega, isso reflecte-se naquilo que faço, na minha
actividade criativa.
P - Aliás, penso
que tu estás cada vez mais alentejano, por outro lado, mas também mais universal...
R - ...
P - Vejamos: no teu percurso discográfico, desde o
"Melro" até ao "Raiano", passando pelo "A Cantar ao Sol" e
pelo "Olho de Fogo", houve sempre uma abordagem da linguagem musical do
Alentejo, mas também de outras linguagens. Neste caso, acho que foste mais do que nunca
à tradição, mas vais mais longe, entras por outras linguagens, como acontece com o
"Extravagante". E se calhar por isso é que recebes o Prémio, porque tens um
grau de inovação muito grande sem nunca te afastares da raiz. A questão de fundo é
esta: será que a tradição, para sobreviver, tem que se transformar?
R - Nós não sabemos o que era a tradição há 100, 150 ou 200 anos, ou sequer se
existiria essa ideia, esse conceito. Hoje recebemos o resultado de tudo isso, é a nossa
tradição. De qualquer maneira, nós sabemos que a tradição do cante alentejano vem de
trás, é muito antiga. Nós vivemos ~a tradição do cante, faz parte do quotidiano, tem
ainda muita força no nosso dia à dia. Ainda acontece com muita facilidade e com toda a
espontaneidade: está-se numa reunião, está-se a conversar, a contar uma história, a
beber um copo e surge uma moda. Surgiu aquilo que se ouve no disco, o "Cante do
Baldão", que é um cante muita força, muita consistência. Tudo o que fiz à volta
foram experiências. É o carácter experimentalista que eu pretendo tenham todos os meus
trabalhos. Lá está, é o não alinhar na linguagem dita mais "moderna", ou
pelo menos mais divulgada. O disco é isso, não é muito fácil explicar porque eu venho
de lá, essa foi a minha escola de canto e de música, foram os meus primórdios, são as
minhas bases de suporte. É tão natural como isso. Ainda por cima o cante alentejano é
um canto harmónico e talvez por isso seja tão sólido. Por isso tive o cuidado de lhe
deixar espaços de respiração sonora, não quis carregar as músicas com instrumentos.
Os instrumentos estiveram sempre como um potencializador do cante, de todas as
experiências instrumentais.
P - A
instrumentação parece-me fundamental para essa "universalidade contida". É
muito sóbria, quase austera por vezes, e essa é talvez a sua grande qualidade. Aliás,
tu foste buscar os músicos ideais: o Carlos Bica, o Mário Delgado, a Filipa Pais, o
Carlos Guerreiro...
R - Já atingiram aquele estádio de evolução em que começam os processos
simples a imperar, e é através da simplicidade que eles se manifestam nas suas grandes
capacidades.
P - Este disco
fascinou-me por essa simplicidade e também pelo lado quase documental daquele
"apêndice" que é o último tema, o "Cante do Baldão". Está fora da
lógica geral e nem faz parte do índice...
R - Também foi como que uma surpresa. Tal como é a surpresa de se descobrir ou
contribuir para a descoberta no cante alentejano daquela forma de estar e de cantar do
"Cante do Baldão". Há um texto no disco em que o dr. José Francisco Colaço
Guerreiro fala sobre este modo particular de praticar o cante. Ele fala da maneira de
estar, eu assisti a uma sessão dessas, tive esse privilégio de assistir e foi ele que mo
proporcionou. Fui lá para os confins da Serra de Ourique assistir a uma sessão daquelas,
éramos vinte e tal, todos excelentes cantores. E depois aquilo é ritualizado, é o
ritual do convívio do vinho, do vinho e da água, porque cada cantor tem à sua frente
uma garrafa de vinho, uma garrafa de água e no meio um copo, e entretanto é a fusão, o
casamento do vinho e da água. O vinho é o quinto elemento. E há toda uma atitude
reverencial, há todo um ritual quase religioso à volta daquilo: um silêncio, uma
tensão, uma expectativa, porque vai ser um dirimir de ideias, de palavras, de capacidades
de improviso, de forma de cantar.
P - Esse tema
surge no disco sem intervenção tua...
R - Todos eles são exímios cantores e grandes poetas que improvisam em dupla quadra, com
regras muito próprias, muito especificas. Aquilo é outra vida, é um outro lado do cante
alentejano. Cantei nas modas, alinhei em tudo, menos naquilo. Não me meti. Estou muito
longe de conseguir fazer uma abordagem daquilo, não sei como confessar a minha
incapacidade para mexer no "Cante do Baldão". Baldão é um sinónimo de
provocação, tem a ver com os cantadores das feiras. Há 40 e 50 anos atrás muitas
destas sessões de "Cante do Baldão" davam cenas de pancadaria, porque os
entusiasmos e as provocações em verso às vezes davam origem a manifestações de mau
perder: aquilo que não se conseguia dizer por palavras se calhar dizia-se por alguma
estalada e talvez por isso se chame "Cante do Baldão". Gosto especialmente da
forma como o tocador rasga aquela viola campaniça, de um modo muito andaluz. Aqui neste
disco só estão três cantadores, mas normalmente são muitos, para haver tempo de
construir a dupla quadra, construir a ideia e colocá-la em verso. Ali eram só três, mas
eram três especialistas que conseguiram dar sequência no pouco tempo que tinham. Uma ou
outra estrofe já vinham alinhadas, mas no calor do convívio e da troca de palavras, o
resto surgiu ali espontaneamente. Mas de qualquer maneira só em ocasiões muito especiais
é que é possível acontecer estar sessões. Vou tentar trazê-los à Amadora, no
espectáculo de entrega do Prémio.
P - A ideia deste
disco surgiu quando e como?
R - É uma vida... Isto foi feito por mim como podia ter sido feito pelo meu irmão, tinha
a mesma legitimidade e a mesma simplicidade. Talvez o fizesse com outras ideias, mas fui
eu como podia ter sido ele. O cante alentejano está mesmo ali, apetecível, com toda a
sua solidez, apetecível para fazer experiências, para juntar instrumentos. Não foi
assim uma ideia muito elaborada, isto é simples. É tão simples como eu ser alentejano.
P - Uma vez, quando fizeste o "Cantar ao Sol", disseste
que tinhas ido a Marrocos à procura das raízes...
R - Aqui estão outras. Estão as do vinhedo, as raízes do vinho, do convívio. Aquilo
que é a essência do convívio, que é cantar, que é contar histórias, que é beber.
Que pode ser uma bebedeira etílica, e é evidente que ela vai sempre desembocar aí. Mas
entretanto é uma bebedeira de estar, de convívio, e de bem estar e de viver, de maneira
muito diversa daquela que se vive na cidade. É um apelo às raízes vivas.
P - No caso do Alentejo, parece que, nesta altura, a música anda
melhor que o vinho, menos adulterada...
R - Não. Isto de vinhos correntes é como as músicas correntes, porque há vinhos
que são muito divulgados e muito consumidos que não são necessariamente os melhores.
Com a música também, olha o que acontece com a música anglo-americana, cuja linguagem
é adoptada até na música dita portuguesa. Mas de qualquer forma existe uma linguagem
própria, nossa, e essa é que é necessário procurar, preservar, recriar. A outra já
está feita, já existe: uma bateria, duas guitarras eléctricas mais um baixo eléctrico,
a linguagem está feita e depois é uma fórmula, curta, melódica e tens um grande
sucesso discográfico. No entanto, há o nosso lado, a nossa maneira ~própria de estar e
fazer música, de pensar música, em português e com uma linguagem própria. É essa que
devemos procurar, rebuscar na memória, porque temos memória para nos percebermos melhor,
é para isso que serve o passado. Os americanos é que não têm passado. Ou têm o
passado vergonhoso e muito recente que a gente conhece...
P - O teu percurso foi sempre um pouco à margem da tal lógica do
sucesso imediato. No entanto, hoje é capaz de ser ainda mais difícil do que há 20 anos
praticar esse tipo de opção.
R - É mais difícil, de facto, porque os meios de comunicação cada vez divulgam
menos. Não estou a queixar-me porque sei perfeitamente que isto é assim, sei que se
tivesse outras opções tinha outros resultados, mas as minhas opções são estas e
conheço os meus resultados e as minhas dificuldades. Mas lamento que às gerações mais
recentes não dêem a possibilidade de conhecer também estas opções musicais. Sejam as
minhas sejam as de outros, variadíssimas. Nos discos nomeados estão muitos que mereciam
ser melhor divulgados, mas não. Hoje em dia o que os miúdos têm à disposição, em
catadupa, é a música anglo-americana. E portanto, quando surge qualquer coisa de
diferente, é-lhes mais difícil aderir, porque não faz parte do seu quotidiano, da sua
formação e das suas opções estéticas, que estão condicionadas à partida. Não vamos
agora passar um atestado de incapacidade à rapaziada nova só porque há pessoas menos
receptivas. Eu entendo isso perfeitamente. Os tempos estão cada vez mais complicados, mas
começa a haver uma movimentação no sentido contrário. E se não existissem indivíduos
como o Vitorino, como o Sérgio Godinho, como o Fausto, e outros, esse movimento não
recomeçaria. Nós ficámos, pagámos por isso, cá estamos. E alguma coisa de diferente
está a acontecer com a rapaziada nova, porque o pop-rock tem ciclos que vão sempre
buscar aquilo que já foi feito, não existe uma evolução.
P - Estás a dizer que o rock não se renova?
R - Não é bem isso. Mas também podemos pegar por aí. Nesta música existe sempre
qualquer coisa, há preocupações com a palavra, com a poesia, com a melodia, procurando
fazer sempre qualquer coisa diferente. E as nossas melodias, normalmente extensas, são
mais compridas, são difíceis de fixar à primeira audição, ao contrário do pop-rock.
Isto não é um discurso contra o pop ou contra o rock, é contra o pop-rock de qualidade
duvidosa, que é aquilo que mais ouvimos. Eu sempre gostei de rock, sempre gostei de pop,
as minhas referências também passam por aí. Pelos Pink Floyd, por exemplo. Eu comecei a
cantar em bailaricos no Alentejo e o que é que cantava? Cantava música da época,
cantava menos em inglês, mais em francês, espanhol e italiano.
P - Podias ser
hoje um cantor romântico...
R - Podia ser perfeitamente. E sou. Sou romântico e sou cantor romântico, até pelas
minhas opções estéticas e poéticas. O poema que abre o "Raiano" é um poema
romântico da Natália Correia, que musiquei. E uma das minhas músicas de que mais gosto
é "Não é fácil o amor", um poema do Luís Pignatelli. É uma música que, se
alguém fizesse uma antologia das músicas românticas do mundo tinha de incluir. Tanto
pelo poema, que eu acho lindíssimo, como pela música, passe a imodéstia.
P - Isso leva-nos
àquela velha questão da letra e da música: até que ponto uma influencia a outra?
R - Aqui o poema dá espaço à música, aliás quase tudo o que fiz na música foi a
partir da palavra. São muito poucos os casos em que a música já está definida e depois
é que surge a palavra. No meu caso é ao contrário.
P - A música acaba por ser sugerida pelo próprio poema, é isso?
R - É, muito. Porque as imagens da palavra surgem como as imagens, digamos, melódicas.
Porque a melodia também é ela própria uma imagem, é uma coisa que quase se vê, é um
fluído. Qualquer coisa que não é materializável, mas que também se visualiza.
P - Estou a
lembrar-me de algumas canções tuas onde há muitas imagens. Eu, que nunca estive em
Casablanca, de repente senti-me lá ao ouvir aquela canção que fizeste sobre um poema do
Hipólito Clemente. Não sei se Casablanca corresponde àquilo que eu imaginei...
R - É provável. A cidade está lá e é mesmo assim...
P - Desde a
gravação do "Melro" até agora já passaram cerca de 20 anos. Nessa altura,
para o grande público, ainda eras basicamente o rapaz que andava a tocar tracanholas com
o Zeca Afonso...
R - Não. Nessa altura ainda era funcionário público, era ajudante no cartório
notarial do Redondo. Mas já o conhecia pessoalmente. E já tinha andado com ele nas
campanhas de agitação cultural do pós-25 de Abril.
P - Uma mudança
de vida como a que fizeste aos trinta e poucos anos é uma coisa complicada...
R - Foi arriscado. Eu já com não sei quantos anos de funcionário público, com a
minha estabilidade em causa, a família, a casa, os filhos... Foi tudo de pantanas, foi
uma mudança radical. E foi um risco grande que corri, deixei aquela estabilidade da manga
de alpaca, o encosto do balcão e a máquina de escrever e vim para as cantigas, para a
minha grande paixão.
P - E achas que valeu a pena?
R - Acho que sim, se calhar agora estava cheio de artroses ou estava já com alguma
trombose ou com uma coisa qualquer que entretanto foi posta de parte, porque as cantigas e
a poesia afastam todos os males. É uma verdade, e estas não se contestam.
P - Desde o teu
início como músico profissional até agora, este universo da música também mudou
bastante. As coisas transformaram-se muito em Portugal, mas tu conseguiste sobreviver a
estas mudanças todas sempre na tua pequena margem, digamos assim, sem a necessidade de
ser um artista de grande consumo...
R - É isso, consegui aguentar-me. Consegui permanecer vivo, porque uma coisa e outra
estão associadas, isso faz parte da minha vida, do meu quotidiano. Naturalmente, com
todas as consequências que isso trouxe para mim. Se calhar podia estar cheio de
"massa" e não estou. Estou "teso", mas estou satisfeito. Mas não é
fácil, com todas as crises existenciais pelo meio, mudar dos trinta e tal para os
quarenta e tal e cinquenta. É muito forte, agita muito por dentro e essa transição
acabou por ter como resultado um hiato nas minhas capacidades, que foram de alguma forma
abanadas. Parei para pensar, estive meia dúzia de anos sem gravar. Não me senti menos
capaz, senti-me diferente: via-me ao espelho e interiormente senti-me outro. E levei tempo
a entender isso, a aceitar-me. Um indivíduo, quando é mais jovem, pensa que vai ser
sempre assim - e ainda bem, porque se um tipo se põe a pensar no que vai ser quando for
mais velho está tramado, começa a ser velho mais cedo. Essa interrupção correspondeu
à crise existencial que me fez parar para me rever, para ver o que eu era e o que ia
passar a ser. Agora já estou refeito e já estou capaz de recomeçar outra vida.
P - Depois de
"Vozes do Sul" o que é que vai fazer?
R - Vou regravar vários temas de discos anteriores. Regravar mesmo, fazer novos arranjos,
novas interpretações de diversos temas. Convidei o Júlio Pereira, vamos voltar a
trabalhar juntos ao fim destes anos todos, o José Peixoto e o Mário Delgado. São eles
quem se vai encarregar dos arranjos dos temas, vou incluir dois ou três inéditos. E já
tenho cantigas para um trabalho novo no próximo ano.
P - Já tens
edição garantida para isso tudo?
R - Sim, na Editora Capela, onde finalmente encontrei cúmplices, gente que gosta das
mesmas coisas de que eu gosto...
P - Parece que
há outra coisa que está a acontecer actualmente, que é, de alguma forma, o regresso de
pequenos espaços de divulgação.
R - É verdade. São lugares imprescindíveis para uma música com esta especificidade, é
aí que se consegue a tal cumplicidade que é fundamental para este tipo de trabalhos. Que
podem ser muito pouco divulgados, têm uma linguagem menos conhecida, menos divulgada. Mas
autêntica.