Beja
Gaiteiros de Lisboa
A história de uma irreverência
Beja (Ovibeja), dia 5 de Outubro de
2003, 21:30h
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. .Os Gaiteiros de
Lisboa são uma espécie de ícone da irreverência na música de raiz tradicional
portuguesa, sobretudo pelo facto de apostarem na invenção de sons e dos seus
instrumentos - pondo todas as referências às avessas.
O grupo, apesar de se formar em 1991, só edita o primeiro disco
quatro anos mais tarde, numa altura em que a música portuguesa vivia o último fôlego de
notoriedade entre os portugueses; e onde as estéticas inspiradas nas raizes passavam a
ter, então, duas correntes: uma dedicada a chamada revitalização da herança das
tradições populares e outra - "inventada" por estes gaiteiros - a de por tudo
a ferver, a custa de muitas travessuras.
Progressivamente, primeiro com "Invasões Bárbaras" e
depois com "Bocas do Inferno", o grupo foi evidenciando a sua vontade em quebrar
certos tabus, de resto criados pela sua própria geração, que outrora mergulhara numa
redescoberta do país das muitas aldeias, esquecidas pelo tempo.
Com essa herança ficaram-lhes tantas marcas, quantas Lopes Graça
pôde, de certa forma, deixar-lhes para consulta. E à custa deste gosto misto, que surge
um projecto contemporâneo, eclético, evoluido e sobretudo muito musical.
"Macaréu", o terceiro disco de inéditos, é marcado
então por uma clivagem dentro do próprio conceito criado pelo grupo. O facto é que os
Gaiteiros sabem que já conquistaram o seu espaço, e por isso podem enfrentar de frente o
seu próprio passado - rompendo com alguns dos argumentos marcantes do seu percurso.
Para alguns, este disco talvez seja aquele trabalho de transição,
adivinhando um futuro repleto de novas incertezas. Macaréu, apesar de ser um trabalho
elevado, é onde menos se revela este lado inédito da irreverência.
E que mais poderão fazer os Gaiteiros de Lisboa para supreender? O
futuro o dirá, porque o passado já lá vai e o deles fica na história.