Edição
Artur e Carlos Paredes
O baú da criação
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . .A
Movieplay prepara-se para editar dois registos gravados nos anos 60, um de Artur Paredes -
acompanhado pelo seu filho Carlos Paredes e Arménio Silva - e um outro do próprio Carlos
Paredes, a partir de gravações dos seus dois primeiros albuns.
O disco de Artur Paredes contém oito preciosas guitarradas que o
guitarrista gravou para a etiqueta Alvorada, em 1961, acompanhado pelo seu filho Carlos
Paredes e pela viola de Arménio Silva. Ao tempo, com pouco mais de 60 anos, Artur Paredes
atingia uma maturidade exigente, que só raramente o levava aos estúdios de gravação.
Aliás, a sua genial e revolucionária obra caracteriza-se mais pela qualidade inovadora
das composições do que pela sua vastidão. Perfeccionista e rigoroso, trabalhava cada
tema até à exaustão. E só se expunha ao público mesmo em disco quando
estava certo de que tudo estava certo. Estas oito guitarradas Desfolhada, Dança,
Variações em Ré Menor nº 2, Variações em Mi Menor, Variações em Ré Maior, Balada
do Mondego, Cantares Portugueses e Passatempo são do melhor que até hoje se
compôs e se tocou na guitarra portuguesa.
Artur Paredes foi um guitarrista genial, o génio
revolucionário da guitarra coimbrã. Muitos julgarão que a guitarra de Coimbra
tenha começado com ele, mas não é bem assim. Seu pai - Gonçalo Paredes, que se formou
na Universidade em 1912, e seu tio, Manuel Paredes - foram seus antecessores na arte
difícil de tocar guitarra.
Artur Paredes foi, assim, o continuador de uma tradição familiar.
Tradição familiar, aliás, cujo testemunho passou a seu filho - Carlos Paredes - outro
genial guitarrista. Segundo Nélson Correia Borges Artur Paredes foi o grande
fenómeno da guitarra de Coimbra, afastou-a definitivamente da sua irmã de Lisboa,
introduzindo-lhe características que melhor se coadunavam com o estilo coimbrão,
designadamente o formato da caixa harmónica. Desenvolveu uma técnica insuperável de que
foi herdeiro seu filho Carlos Paredes. Introduziu nas suas variações a
música popular, com predominância da música futrica de Coimbra, com
extraordinário virtuosismo. Ninguém como ele toca a Balada de Coimbra, que
passou a encerrar todas as serenatas. Paredes nunca cursou a Universidade, embora a
Acedemia o considerasse como membro seu.
De sua profissão empregado bancário, Artur Paredes
participou em muitos Saraus da Tuna e do Orfeon, até ir residir para Lisboa em 1934. Em
Agosto e Setembro de 1925, Artur Paredes deslocou-se ao Brasil, como artista
adjunto da Tuna Académica.
Mas, para que todos os astros se conjugassem para produzir a
geração de oiro do Fado de Coimbra, Artur Paredes foi contemporâneo de
cantores e autores como Edmundo Bettencourt, António Menano, Paradela de Oliveira, Lucas
Junot e Armando Goes.
Artur Paredes, como já foi referido, não se limitou a ser um
genial guitarrista e um excelente compositor - ele deu à guitarra coimbrã novas
sonoridades, através de uma investigação persistente e sistemática, apoiada por uma
outra geração de grandes artistas da construção de guitarras, a família Grácio.
Sobretudo com Edmundo Bettencourt (que, segundo Luis Goes, Paredes
preferia a qualquer dos outros cantores da sua geração), Artur Paredes teve intensa
colaboração, aliás registada em discos admiráveis, embora gravados com as condições
técnicas disponíveis nos anos 20 e 30.
É que, Artur Paredes, não só reinventou e renovou a guitarra
coimbrã, não só criou admiráveis composições, como também reconstruiu a arte de
acompanhar as vozes dos cantores, de forma sublime. Os seus acompanhantes, as
introduções aos fados, a dinâmica, o clima, as atmosferas musicais com que envolvia o
apoio instrumental às vozes dos cantores, constituíram uma extraordinária mais-valia,
que aliás fez escola em guitarristas que lhe sucederam, como foi o caso de António Brojo
e António Portugal.
Para além de todo este virtuosismo, Artur Paredes não gostava de
repartir ou partilhar a sua arte com mais ninguém, mesmo que se tratasse de seu filho
Carlos Paredes, à altura já também outro genial guitarrista.
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . .
Os verdes anos de Carlos Paredes
As primeiras gravações a solo 1962 -
1963
Este segundo CD é editado a partir dos dois primeiros discos de Carlos Paredes, gravados
para a editora Alvorada, no início dos anos 60. São, apenas, oito guitarradas. Mas, em
cada uma delas, já estão esculpidos, inscritos e anunciados os sons e os contornos
futuros da obra de Carlos Paredes, quer os que reflectem a sua matiz coimbrã, quer os que
caracterizam a sua original e genial criatividade na diversidade.
No primeiro EP, o primeiro disco que Carlos Paredes gravou e foi
editado em 1962 Serenata, Danças Portuguesas nº 1,
Variações em lá menor e Variações em si menor , é
patente uma clara influência do estilo e da forma da guitarra coimbrã, embora moldada à
criatividade pessoal e intransmissível do compositor e do executante.
O segundo EP, editado em 1963, oferece-nos a música sublime e nova
que Carlos Paredes construiu para a banda sonora do filme Verdes Anos, de
Paulo Rocha. Na contra-capa deste pequeno disco, estão impressas palavras raras e
preciosas do próprio Carlos Paredes. Raras, porque se trata de uma excepção, esta a de
ser o modesto e discreto autor a referir-se à sua própria obra. Preciosas, porque melhor
do que ninguém, e através delas, Carlos Paredes nos explica, exactamente, o que
pretendeu fazer com a sua guitarra neste filme."
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . .
O mundo segundo Carlos Paredes
Por Viriato Teles
Tenham a bondade, senhoras e senhores. Instalem-se bem. Depurem os tímpanos e afaguem a
alma, para que não percam uma só nota daquilo que vão ouvir. Estes sons raros e
delicados vêm de uma antiquíssima galáxia povoada de gente boa, onde o mais importante
são os Amigos e as infinitas formas de partilhar com eles os sentimentos, os afectos, as
emoções.
Os Amigos, então. São eles, mais do que a própria guitarra que
tanto venera, aquilo que acima de tudo importa no universo de Carlos Paredes. À volta da
música surge a conversa, sempre em busca de um superior conhecimento do mundo. Para
Mestre Paredes, as coisas são tão simples como respirar: «As pessoas gostam de me ouvir
tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e eles aderem. Não há mais nada.» (Público,
20.3.90).
É, pois, normal que Paredes se espante, com as emoções que ele
mesmo provoca junto de quem o ouve: «Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto
eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra,
mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas.»
A guitarra, as pessoas, a vida - eis aquilo que verdadeiramente
conta para Carlos Paredes. Mas quem é, afinal, este homem tão humanamente humano? Quem
é este Paredes, para lá da guitarra de que os seus dedos ágeis conhecem os mais
íntimos recantos? Não é questão a que possa responder-se facilmente, tanto pelo seu
permanente acanhamento em referir-se a si próprio, como pela lealdade dos que lhe estão
ou estiveram mais próximos e que preferem guardar para si os momentos partilhados com o
músico.
São lendárias as histórias da sua distracção congénita, da
sua simplicidade comovente, episódios de alegrias, emoções e ternuras contados sem
maldade em serões de amigos comuns. E é aí que devem continuar, longe dos apetites
mundanos que acabariam por transformar estes momentos únicos em banalidades de um
qualquer anedotário. Vamos, pois, aos factos que são do conhecimento mais ou menos
geral.
Nascido em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925, respectivamente filho
e neto de Artur e Gonçalo Paredes, Carlos aprendeu a tocar guitarra portuguesa quando
tinha apenas cinco anos. Ainda tentaram ensinar-lhe piano e violino, mas «Por
preguiça», não se ajeitou aos instrumentos. «A minha mãe, coitadita, arranjou-me duas
professoras», conta o músico. «Eram senhoras muito cultas, a quem devo a cultura
musical que tenho. Passávamos horas a conversar e uma delas murmurava: "Não sei o
que hei-de dizer aos seus pais". Mas aprendi muito com elas.» (Jornal de Letras,
17.3.92).
Aos nove anos muda-se com a família para Lisboa, onde conclui a
instrução primária, no jardim Escola João de Deus. Passa pelo Liceu Passos Manuel
antes de ingressar no Instituto Superior Técnico, onde não chega a licenciado. Casa e
tem filhos. E nunca pára de tocar a sua guitarra.
A música é, já nessa altura, uma paixão a que Carlos Paredes se
entrega com intensidade. Mas só em 1957, com 32 anos, dá pela primeira vez notícias em
disco, num EP gravado para a Alvorada. Três anos depois, a sua música é utilizada por
Cândido da Costa Pinto na curta-metragem "Rendas de Metais Preciosos", mas
será em 1962 que, com a banda sonora encomendada por Paulo Rocha, gravará a primeira das
suas composições mais geniais "Verdes Anos", apenas, tal como o filme.
O cinema, de resto, é uma presença constante na obra de Paredes,
e ao longo da década de 60 a sua música ilustrou filmes de Pierre Kast e Jacques
Doniol-Valcroze, Jorge Brun do Canto, Manoel de Oliveira, António de Macedo, José
Fonseca e Costa, Manuel Guimarães e Augusto Cabrita. Para teatro, destaca-se o seu
trabalho para a peça "O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer", de Cuzzani,
levada à cena em 1971 pelo Grupo de Campolide - por cuja selecção musical ficou
responsável durante mais meia dúzia de anos.
Quanto a discos publicados, é o que se sabe. Perfeccionista sempre
insatisfeito, Paredes fez rarear as edições das suas músicas, que actualmente se
resumem a três CDs de originais, dois em colaboração (com António Victorino d'Almeida
e Charlie Haden), uma gravação ao vivo em Frankfurt, e algumas colectâneas de
raridades.
O primeiro álbum (que era como então se chamava aos discos de 33
rotações por minuto), publicou-o Paredes em 1967, na Valentim de Carvalho: chama-se
"Guitarra Portuguesa" e foi gravado em Paço d'Arcos, com Fernando Alvim como
acompanhante à viola e Hugo Ribeiro na técnica. Alain Oulman, o francês de alma lusa
que escreveu para Amália músicas como "Gaivota", assinava o texto de
apresentação deste jovem músico que se estreava em disco grande aos 42 anos.
"Movimento Perpétuo", editado em finais de 1971,
confirmou em definitivo o carácter único da sua música. Depois veio Abril. Deixando
para trás projectos que ficariam semi-gravados (e que só muito mais tarde, em 1996,
surgiriam na colecção de inéditos "Na Corrente"), Paredes entregou-se de
corpo e alma à revolução emergente, percorreu o país de ponta a ponta, com a mesma
generosidade com que, no tempo da ditadura, espalhava a sua arte por colectividades e
pequenos grupos dos tais Amigos que se juntavam para ouvir estas músicas mágicas que
anunciavam um mundo melhor. E, assim, só em 1988 voltaria a publicar um trabalho de
estúdio, "Espelho de Sons".
Durante quase todo este tempo foi, também, funcionário do
Ministério da Saúde, que faria dele arquivador de radiografias no Hospital de São José
- até que, já nos anos 80, um ministro mais atento o promoveu, à sua revelia, a um
cargo onde não tinha que fazer rigorosamente nada (um dos tais imprevistos admiráveis
que um dia alguém contará). E só então lhe sobrou o tempo todo para a dedicação
plena à guitarra, a que Paredes atribui todas as virtudes da sua arte: "A própria
guitarra, o próprio tipo de sonoridade da guitarra é que emociona", garante.
A modéstia de Carlos Paredes é a única coisa que pode
comparar-se em grandeza, com o seu enorme talento. Não se pense, porém, que esta atitude
tem o quer que seja de auto-apoucamento, de falta de confiança e/ou de consciência do
valor próprio da sua arte. Pelo contrário: «A música que eu faço tem normalmente
estrutura da pequena canção, da cançoneta. Por isso é que eu costumo dizer sou um
compositor de pequena música. É um termo que nunca utilizo no sentido pejorativo, mas
que foi necessário, no critério de alguns musicólogos, distinguir um determinado tipo
de música, a que também se chama música ligeira de um outro, a música clássica. Esta
seria a "grande música" e, como música ligeira me parece um termo muito vago,
então optei por lhe chamar "pequena música"." Mas atenção: «Quando eu
falo de pequena música, pretendo apenas qualificar música que, estruturalmente, é
simples e que pode até ser, do ponto de vista estético pouco apreciada, mas que não
deixa de ser música. Se eu toco para várias pessoas que me ouvem com atenção, é
porque lhes estou a dar prazer. E mesmo que esteticamente seja uma música menor, em
termos de qualidade, não tenho que me envergonhar dela, não acha?» (Se7e, 5.10.83).
Este enorme pudor que colocou Paredes no pedestal mais alto da
dignidade humana reflecte, apenas, a extrema exigência de rigor que tem para consigo
próprio e que, como notou o jornalista António Costa Santos, "o leva a cada passo
à mais feroz autocrítica e, por conseguinte, a considerar que a opinião do
interlocutor, só é válida e respeitável, como poderá, a priori, ser mais adaptada à
realidade do que a sua". Isto porque Paredes "acredita que, se os outros afirmam
algo, é porque como ele faz, dissecaram em conversa prévia com os seus botões toda a
que antes de botarem sentença. E como, para Paredes, seremos sempre mais do que ele
capazes de, após reflectir, ver correctamente a essência das coisas, temos razão e ele
vai pensar nas novas perspectivas que lhe abrimos, no que 'aprendeu' connosco"
(Expresso, 21.3.92).
Carlos Paredes é, pois, daquele género raro de seres que praticam
as relações humanas segundo uma ideia ideal que passa por uma ilimitada vontade de
compreender, de olhar as pessoas dentro dos olhos, conhecê-las, gostar delas. E de
comunicar com elas na sua globalidade humana de virtudes e de defeitos, sendo que há
defeitos que podem ser qualidades e virtudes que podem afinal não ser assim tão
virtuosas, tudo dependendo da perspectiva, do momento, daquela razão tão última e tão
íntima que às vezes nem o próprio consegue definir.
"Explica-me os morangos", pediu uma vez jacques Brel ao
seu amigo Olivier Todd. Brel, sonhador inveterado de um plat pays em tantas coisas
parecido com o nosso, sabia que os morangos só se podem descrever e saborear. Com a
música de Paredes passa-se algo de semelhante: não se explica, apenas se ouve e se
sente.
Paredes é, por natureza, um homem que não se cansa de aprender,
daqueles para quem a dúvida é sempre mais criativa do que a certeza final. Por isso
nunca toca duas vezes uma música exactamente da mesma maneira. Por isso, também, só a
muito poucos concedeu o privilégio de participarem intimamente na sua arte: Fernando
Alvim e Luísa Maria Amaro, antes de todos; Victorino d'Almeida e Charlie Haden, quebrando
as barreiras entre linguagens musicais aparentemente distintas, e poucos mais.
Do mesmo modo, Paredes consegue ser o maior mestre vivo da guitarra
portuguesa sem nunca ter tido a sua ao serviço do fado dito tradicional. Porque, explica
o músico, «o fado aconteceu em Portugal por razões bem concretas, foi uma expressão
autêntica de um certo tipo de lirismo», mas «foi empobrecido por força das pressões
sociais que estavam interessadas na sua adulteração e foi prejudicado na sua
autenticidade por quem estava interessado em transformá-lo em objecto mistificador».
Por discrição e porque Paredes só se sente bem no meio dos
amigos, encontramo-lo mais depressa - ainda que também raramente - em discos de cantores
como Adriano Correia de Oliveira ("Que Nunca Mais", com textos de Manuel da
Fonseca e arranjos de Fausto) e Carlos do Carmo "Um Homem no País", com letras
de José Carlos Ary dos Santos), ao lado de poetas como Manuel Alegre ("É Preciso Um
País") ou incentivando e procurando entender as experiências sonoras de músicos
mais jovens. E que bem que sabe ouvir o Mestre assumindo discreta mas apaixonadamente a
condição de puro participante em trabalho alheio, como sucede nos discos citados do
Adriano e do Charmoso...
Para Carlos Paredes, a música é, antes de tudo, um acto de amor:
«Para se fazer música com prazer tem muita importância a amizade entre as pessoas. Não
se pode fazer música friamente e com cálculo, profissionalmente, no mau sentido da
palavra, a receber x à hora. Não pode ser assim.» (Se7e, 16.3.88). Por isso, como se
sente melhor a tocar é «em família, na intimidade. Acompanhando o tocar de uma conversa
em que falamos de nós, dos amigos, dos acontecimentos da vida diária.»
Num tempo dominado pela crescente novagentização da sociedade, as
palavras que Carlos Paredes partilha com o mundo, nas entrevistas que já deu, são a
prova de que existe um país muito parecido com o nosso e que também se chama Portugal,
mas onde as coisas fazem outro sentido. Ouçamo-lo quando lhe pedem para definir a sua
arte: "A música que faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em
que eu vivo, e passará a ser encarada de outra forma quando essas circunstâncias
desaparecerem. É urna coisa que, se perdurar graças aos discos, ficará apenas com o
valor de documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel
Freire. E já ficarei muito orgulhoso se, daqui a muitos anos, puder ser entendido como um
compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época ... » (Se7e, 5.10.83).
Carlos Paredes é isto. Sereno, frontal, humilde. Mas sempre seguro
das convicções - mesmo se as convicções não são mais do que as incertezas em que
acreditamos. Atento aos pormenores de tudo o que acontece em seu redor, Paredes não
deixou que as transformações do mundo lhe passassem ao lado. À semelhança de muitos
outros que, como ele, dedicaram toda a vida a lutar "para que ninguém mais tivesse
que lutar", como diria Vinícius, também Paredes sentiu o peso de algum desencanto.
"O ideal não morreu e verifica-se que há determinadas coisas que só um sistema
avançado pode resolver. Mas não pode ser de uma forma mecânica; é preciso ver, meditar
e sobretudo ter um grande respeito pelos outros" (Expresso, 21.3.92)
Um grande respeito pelos outros. Eis o que faltou às utopias, mas
nunca deixou de estar presente na vida, na música e nos gestos de Paredes. É nesse mundo
de Amigos que se respeitam e se amam, que vive Carlos Paredes; é desse mundo, onde a
Verdade e o Prazer caminham de mãos dadas, que nos ilumina com a grandeza simples dos
sons que só ele sabe inventar.
Um génio? Ele diz que não, que é apenas um homem igual aos
outros, capaz de amar e de sofrer, de rir e de chorar. «Geniais são as pessoas que
respeitamos muito Génio era Mozart.» Génio, génio grande e generoso, é este Carlos
Paredes, digo agora eu. E o futuro que me desminta, se for capaz. Lisboa, Julho de 1998