Texto: Rui Monteiro
Nos 17 discos que editou antes de «Porto
Alto», Rão Kyao mostrou o que havia de comum entre músicas de linhagens tão
aparentemente diferentes como a portuguesa e a indiana, inspirou-se nos ritmos da música
do Nordeste do Brasil, no jazz, cruzou a sua mestria com a alma do flamenco, estabeleceu
uma forte ligação com o Oriente e percorreu, como poucos antes dele, os sons originais
de Portugal.
Hoje, neste disco, esse
espaço a que Kyao chama Porto Alto é, mais que o território físico berço de uma
nação e de uma cultura, um lugar a bem dizer mítico, inspirador de
viagens e de sonhos e de sons e de palavras muito distintas, habitado por um povo que
evoluiu como os ramos de uma árvore bem enraizada na terra, a mesma terra onde cultiva o
Pão, o Azeite e o Vinho que comungamos como origem da nossa cultura.
A rota da viagem de
Rão Kyao em «Porto Alto» nasce com o Sol e evolui, como é característico na sua
música feita de tantas influências, através da troca, da aceitação da diferença, da
procura de espaços comuns. Ao longo das faixas do álbum o som das flautas atravessa
planícies, percorre montanhas, acolhe estímulos variados onde se reconhecem lugares
distantes, músicas ciganas e árabes e andaluzes misturadas com as suas origens
portuguesas. Aqui, neste Portugal de «Porto Alto», sente-se o amor e a alegria, a dor,
mas também a paixão e o trabalho que produzem o Pão, o Azeite e o Vinho onde nasceu e
se sustenta esta cultura singular na sua diversidade.
«Porto Alto» é
por assim dizer uma dúzia de pontos no mapa desta viagem. Para ser preciso,
treze são os lugares, ou talvez treze estações desta forma de peregrinação pelos
sítios e pelas gentes. Decerto, pontos de encontro num percurso determinado pela música
e pelas relações que ela tece quando se deixa contaminar pelos estímulos que persistem
na memória para lá do tempo e das circunstâncias.
Como determina o
código não escrito dos viajantes (que não devem ser confundidos com os turistas), a
jornada inicia-se pela manhã. Aqui, as flautas de Rão Kyao acordam com o Sol e, em
«Saudação ao Sol», «Rodinha da Eira», «Dança dos Montes» e «Castro Verde»,
acompanham o seu caminho para Ocidente, evocando a música do interior, estabelecendo a
tessitura do que nos é musicalmente comum, até arrimar no interior português como quem
precisa de pousar a bagagem e parar por um momento.
No novo alfinete
espetado neste mapa, «O Luar e os Lobos», Rão Kyao evoca «a memória fortíssima da
música cigana que se ouve pela Roménia, pela Bulgária...» e que se espalhou através
das margens do Mediterrâneo. Saltando, no momento seguinte, para outro desses «sítios
onde tantas coisas se passam», «Porto de Alfama», onde a música evoca outros tempos,
levando-nos até à época das Descobertas, quando Lisboa se tornou ponto de confluência
de comércios, povos e culturas que os portugueses assimilaram e transformaram em coisa
sua.
É neste momento de «Porto Alto» que a música desenvolve a ideia central do álbum, ou
o que Rão Kyao chama: Trilogia dos Alimentos. Com «Balada do Pão», «Na Apanha da
Azeitona» e «Vinho dAlegria» é a coisa comum, a raiz da cultura que se encontra
em canções de trabalho, mas também de celebração e festa tema que de certa
maneira se encerra na reflexão interior incrustada na letra de «Lamento Redentor».
A surpresa, e uma
interrogação, marcam os dois hipnoticamente ritmados andamentos de «Nas Margens do
Guadiana» (onde Rão Kyao, como antes em «Saudação ao Sol», é acompanhado pela
guitarra desse grande mestre do flamenco que é Gerardo Nuñez). Surpresa por «estarmos
em casa» quando a música tanto evoca o norte de África como a Andaluzia; interrogação
por tão facilmente esquecermos esta identificação, motivo aliás que conduz ao fim da
viagem pelo Portugal de «Porto Alto», em «Rabela», tema inspirado no ritmo do folclore
da Beira Alta, e em «Um Canto Transmontano», aqui tomados como exemplos marcantes desta
cultura de Pão, Azeite e Vinho.