Lisboa
Jan Garbarek
A arte do voo do pássaro
Lisboa, CCB - Grande Auditório, Dia 14 de Maio de
2004, 21h
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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Nas suas voltas pelo mundo, acabou por descobrir a música 'mais
exótica da sua própria terra. Desde o tempo em que Coltrane o fascinava, a partir da
improvisação livre de Ayler, Sanders, Shepp, foi destilando expressão pura. Para ver no
CCB, dia 14 de Maio.
No ponto em que a sua música está actualmente e tem estado há já algum
tempo, não são necessárias explicações. Ela é, na sua forma implícita e
irremediavelmente idiossincrática, original, onde outras são meramente inventivas.
Garbarek trabalha o seu som há 40 anos, endurecendo-o, aguçando-o (como um ferreiro
japonês trabalharia o ferro para fabricar um sabre de samurai), até atingir essa
inquestionabilidade triunfal que nos corta a alma.
Há aqui uma rigorosa implacabilidade, que ultrapassa aqueles que apenas
celebram o seu "bom som". Entre outras coisas, nas origens de Garbarek está a
improvisação livre e delirante dos anos 60 e do início dos anos 70, com todo o seu
potencial provocatório. No entanto, rapidamente virou-se para a arte musical e
folclórica de muitas culturas e, finalmente, para o estranho e óbvio folclore do seu
próprio país, a Noruega.
Nas suas voltas pelo mundo, acabou por descobrir "a música 'mais exótica'
na minha própria terra". Desde o tempo em que Coltrane o fascinava, a partir da
improvisação livre de Ayler, Sanders, Shepp, foi destilando expressão pura, durante um
longo processo. No som do seu saxofone, a sua personalidade está tão concentrada, que
apenas se revela à primeira com músicos como Johnny Hodges, que ele tanto admira.
Picasso é reconhecido por uma única pincelada.
Nas vastidões de som produzidas por linhas melódicas prolongadas de forma
incomparável, a música de Garbarek adquire uma clareza amarga. Intensidade em vez de
sentimentalidade. Não é possível ouvir Garbarek "erroneamente". Ele é, para
falar francamente, demasiado coerente, demasiado envolvente, demasiado evidente, quando
nos convida para extrairmos as nossas próprias ilações.
O triunfo da simplicidade só pode ser compreendido se pensarmos na forma como
lá se chegou: uma eliminação e um processo evolutivo, uma longa concentração e
compressão, compactação, e não abstracção. De outra forma, a sua música seria
apenas um jogo árduo, uma carapaça, e não esta sensação carnal, que nos deixa sem
palavras.
Jan Garbarek moveu-se e move-se de muitas maneiras: Bill Frisell, Keith Jarrett,
Agnes Buen Garnås, Zakir Hussain, Anouar Brahem, o Hilliard Ensemble. Mas a sua
constante, o seu "som orgânico" tem sido, de certa forma, e desde há muito
tempo, o Jan Garbarek Group, o quarteto com Eberhard Weber, Reiner Brüninghaus e Marilyn
Mazur, a dinamarquesa nascida em Nova Iorque.
O grupo é para ele, quando não associamos a isso uma noção de
"conforto", uma espécie de família: uma união de confidentes, em que ninguém
deve adiar aquilo que é indispensável e em que toda a energia se concentra no essencial.
É isso que é desenvolvido através do grupo. Só então Weber, com a sua forma
inconfundível de cantar o seu contrabaixo em Mi, Brüninghaus, com as suas teclas
utilizadas com inteligente parcimónia, ou Mazur, com o seu vasto arsenal rítmico, uma
percussão simultaneamente flutuante e ligada à terra, criam o espaço (dito de forma
patética: o céu) para os voos de Garbarek. "Atmosfera" não tem de ser
forçosamente um conceito negativo em música.
O Jan Garbarek Group proporciona ao tempo e ao ouvinte um estado diferente de
agregação. E que coisa mais bela se poderia esperar das Artes? A música é um país
estranho. Lá, as coisas são feitas de maneira diferente.
Por Peter Rüed
Jan Garbarek Group
Tradução e adaptação: Rui Neves
Um som fora do silêncio, planando acima da fremência rítmica dos instrumentos,
elevando-se para além da aridez etérea de cantos medievais, ele que sempre soube ouvir
esta chamada - mesmo se por um simples momento - não o esqueceremos; o som de saxofone de
Jan Garbarek. O músico norueguês tem dominado a arte rara de uma tonalidade de si mesmo
ao ponto do sucesso dos seus discos ter sido tão bom como o garantido, precisamente pelo
seu carácter de coisa única.
Uma tonalidade sozinha e por si própria é insuficiente, fiquei novamente
espantado com o que Garbarek é capaz de fazer com o seu próprio som. A música é
intensamente construída à volta da melodia; as frases como que esculpidas em vidro, são
vívidas, puras e imaculadas ao mais ínfimo detalhe.
A sua imagem de marca são composições melodiosas em arco; como hinos, suaves
mas ásperas, sérias e carinhosas, introspectivas. Os suas paisagens são simples,
convincentes e espantosamente complexas ao mesmo tempo. Ouvindo a sua música fascina-nos
com a intensa impressão de nos sentirmos elevados. Depois de ter feito parte da cena
europeia da música durante quarenta anos, Garbarek dispõe ainda de um interminável
repertório de ideias. Tem tocado com contemporâneos seus, oriundos dos mais remotos
espaços do planeta, tem demonstrado familiaridade com as múltiplas tradições musicais
das mais díspares áreas de todos os continentes - mas quando actua, todas estas
influências não são uma mescla de múltiplas partes de estilos de músicas do mundo,
pelo contrário - todos os estilos integram-se na sua própria música.
Jan Garbarek é acompanhado pelos mesmos companheiros de há muitos anos. A
percussionista dinamarquesa Marilyn Mazur com a sua mágica parafernália de inumeráveis
tambores, gongs, campainhas e pratos, desenha uma teia de ritmos dançáveis e
saltitantes. Ela notabiliza-se por uma diversidade borbulhante e pela sua boa disposição
feminina, prova provada de como tanta energia e sensibilidade existe no ambiente do grupo.
Muito notada em palco, Marilyn é uma favorita das audiências, tal como um duende em
espírito.
Eberhard Weber, contrabaixista alemão, é universalmente reconhecido pela
especial entoação do seu instrumento construído sob as suas indicações. É a medula
do grupo, um contrabaixista que nunca foi escravo do ritmo. É um estilista original na
mais pura acepção do termo.
Também da Alemanha, o pianista Rainer Brüninghaus domina toda a herança do
piano, dos clássicos ao jazz, com sentido aberto a estruturas complexas e intensas que
sublinham em temas básicos o som do grupo, transportando-o na sua viagem musical.
A interacção do grupo faz-se calmamente e sem sobressaltos. Conhecem-se há
tanto tempo que sempre que se reúnem para o momento mágico de atingir essa tonalidade
especial que deixará nas audiências uma marca nas suas memórias,fazem-no com uma fé
cega.