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Sobre o programa
Vox Populi
Durante um ano, Vox Populi trará a Serpa músicos das sete partidas
do Mundo, seleccionados com base em critérios de qualidade artística e de diversidade
cultural. Pretende-se, com este projecto, por um lado proporcionar às populações de uma
região periférica, tradicionalmente afastada dos circuitos de difusão cultural, o
contacto com manifestações artísticas de qualidade e, por outro, afirmar de forma
progressiva o papel da cultura e da música em particular - como veículo do
desenvolvimento local de Serpa nos próximos anos.
O projecto Vox Populi inclui a realização de concertos, com periodicidade mensal, entre
Dezembro 2000 e Dezembro 2001, e também de algumas iniciativas especiais (conferências
internacionais, blocos temáticos e intensivos) que de algum modo prolonguem e reforcem o
efeito de descoberta e de sensibilização para as linguagens musicais e culturais
diversificadas provocado pelos espectáculos em questão.
O programa definitivo do projecto está a ser ultimado neste momento e será objecto de
uma divulgação por blocos (trimestralmente), de acordo com a natureza flexível e
dinâmica que se lhe quer conferir.
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Serpa
Programa Vox Populi
O terceiro Samba de Mestre Ambrósio
Serpa, Cine-Teatro Muncipal, dia 19 de Maio de 2001
(21:30h)Serpa vai receber no
próximo dia 19 de Maio o Mestre Ambrósio e o "Terceiro Samba", um disco e um
grupo revelado na cena pernambucana do mangue beat. Este espectáculo está integrado no
programa Vox Populi, uma produção da Etnia e do World Music Centre de Serpa.
Revelado na cena pernambucana do mangue beat, o Mestre Ambrósio não é um
representante ortodoxo do movimento, mas também não destoa de seu ideal. Embora
incorpore menos elementos externos, o grupo manifesta o mesmo tempero experimental dos
co-irmãos e há no seu terceiro disco "Terceiro Samba" uma recorrência
temática.
Enquanto o Nação Zumbi disparou seu o Radio S.Amb.A (Serviço Ambulante da
Afrociberdélia) e o mundo livre s/a debutou num Samba num certo esquema
"noise", o Mestre desembarca agora seu Terceiro samba. A gente enxerga a
expressão além do ritmo, como um acontecimento, uma história, um signo que não é só
musical, generaliza Sérgio Cassiano, 33 anos, o percussionista que fala pelo grupo.
Já o mangue beat foi uma diagramação do que estava acontecendo na cena
pernambucana, que o movimento se encarregou de difundir para o mundo.
Com uma maior participação autoral em todo o CD, Cassiano chama a atenção para o jogo
gráfico da capa onde uma tintura mais clara nos is do título desvela uma
outra leitura: Tecer o samba, algo aparentado ao que o mestre da
experimentação Tom Zé promoveu no seu clássico Estudando o samba. Claro, o
género propriamente dito entrou como inspiração (e tem duas faixas a ele dedicadas,
Lembrança de folha seca e Saudade), a partir da influência de alguns ícones
do ramo como Cartola, Martinho da Vila, Monsueto e Roberto Silva.
Apesar da riqueza de sugestões e densidade temática, Terceiro samba foi o disco
mais tranquilo e mais rápido do Ambrósio, na avaliação de Cassiano.
Iniciado dia 1 de novembro, ele já estava misturado no dia 23 de dezembro. O grupo
trabalha com uma pré-produção que inclui a audição e votação democrática interna
do material a ser aproveitado. Definindo a sua escrita como intuitiva e lenta, o
percussionista que usa o violão para compor (mas não sei tocar direito,
admite) traz sempre à bordo um gravador onde vai registrando as idéias musicais na base
do "lá lá lá" até à concepção final.
Mas é bem directo nas letras (não gosto de complicar) como demonstra no
misto de merengue e baião com um samba escondido Povo
(povo, não a raça da ração/ pode cantar: derrubar portões, ladrões e muros/
pode dançar/ festejar na contramão). O xote Vida, também assinado por
ele, é da mesma matriz, de tiradas rápidas que definem um monte de coisas.
Segue, segundo Cassiano, aquela estrutura do blues de frases sofridas entremeadas com
ironias e pontos afirmativos. Ao lado da arquitetura poética, o Mestre Ambrósio tece uma
teia de ritmos e timbres que o credencia como um inovador, que bebe nas fontes primais.
A faixa de abertura, Caninana, de Siba, titular da guitarra e rabeca do grupo
parte de um refrão tradicional de coco de roda e viaja (onde risca a caninana/ toda
a certeza se engana/ do amor cai a cabana/ e a raiva monta uma igreja) monitorada
por caixa de guerra (algo estranho ao gênero) além do ilu, um instrumento só encontrado
no xangô (candomblé) do Recife. Em Gavião, também de Siba (em
momentos muito importantes da vida dele sempre passa um gavião, é uma coisa muito
particular, adiciona Cassiano) o ritmo do coco meio abaianado aproxima-se do
maracatu de baque virado, servido por pandeiro árabe, gonguê e caracaxás. Na ciranda
Fera, a condução normalmente delegada ao sax, é feita pela rabeca pilotada
por Siba. Já a quadrilheira (junina) Carneirinho destaca o fole de 8 baixos
do co-autor Helder Vasconcelos mais a pontuação de zabumba de ORocha. A
faixa de trabalho Coqueiros, um baião, segue o balanço dessas árvores que
emolduraram a infância do autor, Cassiano. Nasci em Recife e cresci em Olinda e
tenho uma relação muito forte com o mar, relembra ele.
Ainda na clave da natureza, duas músicas se casam acidentalmente, O espírito da
mata, de Cassiano e No bojo da macaíba, de Siba. Quando fomos
confrontar nosso material, sem que um soubesse o que o outro estava a fazer surgiu essa
coincidência de temas, lembra Cassiano. A primeira, um perré
(entre os quatro ritmos dos caboclinhos um dos mais lentos) descreve um
cara entrando no meio do matagal e sendo transmutado em árvore para sentir-se como uma
planta. A segunda, um verdadeiro tratado sobre árvores exalta uma
madeira forte utilizada na construção dos tambores do maracatu nação. Por sua vez
Mestre guia (acoplado ao folk de domínio público Cabocla) é
baseado nos ritmos do toré indígena. O samba Saudade tem inspiração nos
autores da Velha Guarda como Cartola, da mesma forma que Lembrança de folha
seca, gravado "em directo" no estúdio sem dobragens, quase como uma
resposta de um grupo jovem a esse sub-samba que anda por aí, separa Cassiano. Rico
de propostas e descobertas, ampliando o leque do universo nordestino onde bebe, este
Terceiro samba depura a caligrafia do Mestre Ambrósio. E sacramenta a
maturidade inquieta do grupo. (Por Tàrik de
Souza, crítico musical Brasileiro)
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